Conhecia-o, mas não o conhecia. Ou melhor, não o conhecia de todo. Para quê mentir. Para quê fechar os olhos a uma morte tão estúpida se nem o conhecia? Não vou conhecer. Ainda assim, vou sonhar com ele. Vou adormecer por ele. Vou simpatizar com ele. E por fim, odia-lo por me ter deixado sem que eu o pudesse conhecer. Porque afinal de contas conhecia-o. Conhecia-o cá dentro. Só estava por descobrir.
Última noite de queima. a última das últimas. porque tem mesmo que ser. embora eu nunca o quisesse. ser a última implica muito mais do que um fim. é um início. é uma catrefada de memórias, momentos, risos, lágrimas e um tudo mais. é aquele gosto amargo do ter que sair sem olhar para trás. porque se olharmos, não vamos ter coragem. vamos querer voltar uma e outra vez mais. sempre com o desejo de voltar a viver o que já não se pode viver mais. agarrar os sonhos de pulsos cerrados. porque enquanto cá estamos tudo é possível. tudo é passível de ser realizado. lá fora é apenas a incerteza dos dias que nos esperam.
Ficou tanto por viver, mas desta tem que ser de vez.
Adeus. Até sempre cidade do meu coração.
Porque não posso eu ter um amor assim?
Há dias em que acordo assim: dormente.
Nostalgia a transbordar no olhar. Na paisagem da varanda.
Há dias em que sinto mais a tua ausência. A falta que me fazes. Dias em que vagueio por ruas despidas, lugares outrora nossos.
Hoje chove. Lá fora também. O eco da chuva ouve-se cá dentro porque há um vazio infinito por preencher. Se me deixasse ficar de certo virias. Mas não posso. Não posso querer, desejá-lo sequer. Sou errante. Não posso prender-me aos dias cinzentos, às manhãs de inverno, às noites de solidão.
é um lugar comum neste lugar. a perda. vivo constantemente atormentada por ela. são as gentes que vão. são as que mudam. são as que deixam de interessar. são tantas que ainda lembro mas já não falo. e cada etapa mais, eu sei, há-de levar-me mais um ou outro. ou mesmo todos. é assim. deixa-me perdida esta constatação. deixa-me presa a um passado que chego a duvidar. dói tanto pensar que mais cedo ou mais tarde hei-de acabar sozinha. como tia, solteirona e ainda solitária. como alguém me disse um dia: uma causa perdida. da vida, toda ela uma causa perdida.
Foi hoje o dia D. Ainda não (me) deixei lavar a angustia de ter desistido. Sinto-me triste. Para quê ao certo as resoluções de ano novo? Repetir uma vez acontece. Repetir duas só acontece a quem não lutou devidamente pelos seus sonhos.
É saudade das palavras. Das eternas despedidas. Dos abraços e beijos roubados ao tempo. Dos jantares perdidos. Dos nós desfeitos do meu cabelo.
Há coisas que não se esquecem. Há momentos que pela sua suave passagem nos marcam. É saudade. Hoje, sempre. A saudade.
Hoje não houve nem haverá desculpas. foi só para ser mau. viu-se no rosto dele. ouviu-se nas palavras dele.
it´s the only thing i want to say.
É como se fosse dar a sua vida para alguma experiencia que desconhece. Desconhece este mundo onde a deixaram. Já não ouve o que lhe dizem, perdeu-se na previsão dos três meses. Começa a fazer listas mentais do que ainda quer fazer. Coisas. Essencialmente emoções às quais ainda não se deu ortunidade de poder viver. Para quê tanto drama. Tantos enredos complexos. Agora já nada importa. Deixou de ouvir quando lhe deram três meses. Decide de imediato fazer o que não fez. Correr mundo fora à procura de um amor. Do seu amor. Talvez encontrar-se no outro. Porque isso, ela nunca viveu. Nunca deixou por um minuto só de pensar nela. E agora, tanto faz. Que importa. Dão-lhe três meses e ela nem pode protestar.
A tua tarefa é andar -respondeu a avó. Um corpo imóvel limita-se a si próprio, um corpo em movimento expande-se, torna-se parte do todo, mas é preciso saber andar com ligeireza, sem cargas pesadas. Andar enche-nos de energia e transforma-nos em borboletas que se elevam e vêem realmente o mundo tal como é. A vida tal como é. O nosso corpo tal como é. É a eternidade da consciência. É a compreensão de todas as coisas. Isso é Deus em nós mas, se quiseres, podes ficar sentada e transformar-te em pedra.
in Malinche de Laura Esquivel
sem paredes, sem ter portas nem janelas
nem muros para derrubar
talvez um dia me encontre.
assim, talvez me encontre
Trovante, 125 Azul
Enquanto tomava o seu pequeno-almoço de uma tigela funda cheia de cereais, olhou a rua pela janela da cozinha. Chovia. A potes -pensou ele. Vai querer sair para lavar a alma dos pecados que tem cometido. Não sabe como chegou ao ponto de ter que mentir à própria mãe que sempre lhe estendeu a mão. Ao pai que o ensinou a ser recto nas decisões e nas acções, já nem encara. Vai mesmo querer sair. Apanhar os salpicos da chuva quando bate com força no passeio. Ouvir o silêncio quebrado da cidade fantasma que o esqueceu. As ruas parecem-lhe outras. São outras, na verdade, porque as viu com outra luz, outro sabor, outro cheiro que não se vê nos dias quentes de Verão. Agora faz frio e a chuva lava o que de noite ele manchou. Saiu, de vez, para rasgar os crimes de uma noite mais.
Parece estar tudo mal. Sinto a tua falta e penso que se por uma outra razão ainda por cá estivesses eu não teria que passar por nada disto. Há dias em que penso que vais entrar a qualquer momento pela porta e pedir desculpa pelo atraso. Custa muito, ainda hoje, aceitar que não voltas. Que temos de viver as nossas vidas fingindo que não mudou nada. Mudou. Mudou tudo. A casa. As relações. Os olhares [que já não se tocam]. As festas. As mágoas. Os compromissos. As responsabilidades.
Estou no limite do que sei. Do que não sei. Do que posso fazer.
A ajuda não chega, mas as decisões têm que ser tomadas. Não gosto de obrigar niguém. Não gosto, tão pouco, de agir contra a vontade de outros. Gostava sim, que mandasses um pouco só de compreensão. Necessito de alguma astucia, uma pitada de autoridade e se não for pedir muito uma palavrinha tua.
Fiz as malas. Entrei no teu carro edeixei-me levar. Não sei onde chegámos, mas sei que enquanto estiver contigo, estarei em casa.
o estranho caso de alguém que amo. é vê-los a perder o folgo. é ver a juventude a desvanecer. as rugas cada vez mais fundas. e depois passa-se a andar de mão dada. e depois a não comer pela própria mão. a já não saber falar. e a ter quem os ame como são. a retribuir tudo o que deram. a ser condescendentes e a amar. e amar. e quando já nada parece resultar insistem e continuam a amar.
enfim, há-de passar.
os dias passam e parecem-me todos iguais ao litro. ninguém diria que 2011 já se foi. ninguém diria, ou pelos menos eu não o diria, que 2012 já veio bater à porta. Tive que o deixar entrar. as resoluções ficam para depois. um depois sem exigências ou remorsos.
não consigo parar de pensar em ti. não há maneira de me fazer esquecer o que não passámos juntos. o que nos foi roubado só porque sim. porque sou teimosa e o orgulho fala, sempre, mais alto. sinto que és a peça que me falta para puder avançar uma vez mais. por sinal, são estas coisas que me deixam estagnada num tempo que já não é o nosso. de uma vez. tenho que te tirar de cá de dentro de uma vez. começar a tapar os casos inacabados. calar de vez as palavras que não foram ditas. ou solta-las aos quatro ventos. alguma coisa que me tire deste sítio que não é a minha casa. que não me deixa dormir. calar-te de vez. matar-nos de vez.
Não percebo o porquê desta vida que não pára. É vê-los envelhecer. ver-me envelhecer. Saber que a vida um dia acaba. Aquilo que conhecemos não volta. As memórias vão-se e voltam em pedaços. despedaçados. Os amigos. Os abraços. Os voos. É tudo tão fugaz. Tudo uma ilusão que nos faz permanecer por aqui, mesmo não sabendo o vem de lá. Se a calmaria. Se a tempestade. Se o perpétuo silêncio.
se souberes o que eu quero. porque hoje não me sinto. não me sei. não me conheço. mas preciso urgentemente de algo que não tenho. que não sei. que não se vende.
Chegou o seu momento. ela soube-o. está só a inspirar e a ganhar balanço. coragem. É o memento dela. vai finalmente ter paz. Só o branco a invadir a tempestade. o mar a enrolar na areia. e o silêncio.
Está só a puxar de um último cigarro.
Quando o deixou bater a porta, não imaginava que seria a última vez que o via. Mesmo hoje, quando sai à sua procura, já não o encontra nos sítios que eram dos dois. No banco do jardim - a solidão. Na calçada junto à igreja - a mágoa. Na paragem do autocarro - a ausência. Ela não quer acreditar. Mas o pôr-do-sol alaranjado dos dias mornos do Outono sussurram-lhe ao ouvido: deixa-o ir.
São momentos preciosos. Ele estende-lhe a mão. Ela diz que não, mas sobe a escada para ficar ao nivel dele. São pérolas escondidas numa vida que já não recorda. Aquela vida que a fazia ficar acordada noite fora ao frio. Os homens a olharem e ela com medo. Medo do futuro, não deles. Aos homens- ela sabia-os de cor. As deixas. As manias. As fantasias. Mas ao futuro, temia-o. Como ainda hoje teme olhar por mais que um dia só. Porque só um dia pode levar-lhe a felicidade que alcançou. Um só dia pode desvia-la do objectivo que quis tomar para si. O de não voltar a passar pela rua dele. A rua onde ele lhe roubou o ar. As pedras da calçada manchada por gritos. As parades das casas de dois andares tingidas por maus tratos. Aquela rua onde um dia pensou ser feliz. Onde também deixou ficar os maços de tabaco. Os homens que a olhavam. O homem que lhe estendeu a mão.
Há dias em que me fazes tanta falta. E outros ainda em que não sei como posso viver sem te ter aqui do meu lado. Levanto-me, faço a cama sem reclamar e olho o teu quarto pela porta entreaberta. Não há verdade mais dura do que a nossa.
. Que desta seja a última v...
. das coisas de criança na ...
. da chuva
. 'oh honey, there is a bea...